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Home Brasil

O futebol e a Copa como instrumentos coloniais

junho 7, 2026
in Brasil
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Algoz do Brasil na final da Copa de 1998 e também nas quartas de final de 2006, Zidane é um exemplo das vantagens extraídas por países colonizadores

Zidane e Seedorf, dois craques, dois ídolos mundiais. Mas o que é que as trajetórias deles nos dizem sobre colonialismo? Quando assistimos a uma Copa do Mundo, normalmente vemos camisas, torcidas, rivalidade e gols. O problema é que algumas histórias começam muito antes de a bola rolar.

Seedorf nasceu no Suriname, aqui na América do Sul, em 1976. Só que tem um detalhe importante, que a maioria de nós esquecemos: ele nasceu apenas um ano após o país deixar de ser colônia da Holanda. A trajetória de Seedorf não é um caso isolado. Ela simboliza um movimento que se repete há séculos no processo de colonização.

Antigamente, os impérios europeus cruzavam oceanos para retirar das colônias ouro, especiarias, alimentos e riquezas naturais. Hoje, a lógica é a mesma, só mudou a forma de extração. O que atravessa o oceano são seres humanos, carregando o talento que foi moldado lá, mas que vai servir ao projeto de poder europeu.

Ainda criança, Seedorf saiu do Suriname com destino a Holanda, onde se tornou um dos maiores jogadores da história daquela seleção, a holandesa. E talvez você nunca tenha parado para pensar nisso: a camisa da Holanda é laranja, mas a bandeira do país é composta pelas cores vermelha, branca e azul. O laranja não tem nada a ver com a bandeira oficial. A cor é uma homenagem à Casa de Orange e a Guilherme de Orange, figura central na independência holandesa contra os espanhóis. Ou seja, até a identidade visual da seleção que a gente vê na TV carrega marcas históricas e políticas ligadas a essa disputa colonial. É a história escrita no tecido.

Já Zinedine Zidane, filho de argelinos, se tornou o grande rosto da França campeã do mundo em 1998. Mas existe uma camada da história que muita gente faz questão de esquecer: 10 anos antes de Zizou nascer, a França ainda promovia uma guerra colonial aberta contra a Argélia.

Enquanto isso acontecia, jogadores argelinos abandonaram clubes e até a seleção francesa para formar o time da Frente de Libertação Nacional (FLN). Era uma seleção não oficial, que viajava o mundo jogando partidas diplomáticas para chamar atenção para a luta pela independência da Argélia.

Ali, o futebol deixou de ser só esporte para virar ferramenta de resistência anticolonial. Enquanto a metrópole queria manter o controle, o campo de futebol virou trincheira de denúncia. O esporte, que deveria se limitar ao lazer e entretenimento, mostrou que tem um papel político central na vida dos povos.

E isso não acabou. A França campeã do mundo em 2018 tinha vários protagonistas ligados diretamente às marcas da colonização e da diáspora africana. Mbappé é filho de pai camaronês e mãe argelina. Pogba tem origem guineense. Kanté é filho de imigrantes do Mali.

Zinédine Yazid Zidane, filho de argelinos, nasceu em Marselha (FRA) | Crédito: Achim Scheidemann/AFP

Até hoje, a seleção francesa carrega para dentro de campo histórias que nasceram fora dele, em terras que foram exploradas pela França. O futebol, nessas seleções, acaba sendo um espelho da própria política de imigração e das feridas coloniais que não cicatrizaram no tempo.

Portugal também usou o futebol como ferramenta colonial — e de um jeito ainda mais explícito. Durante o regime colonial português, o futebol era incentivado em colônias como Angola e Moçambique. Não era por esporte, mas uma forma de reforçar a ideia de que Portugal e suas colônias formavam um único corpo.

E ninguém simboliza mais esse momento do que Eusébio. Nascido em Moçambique, ele foi transformado em símbolo do sucesso português. Seu talento era celebrado como um troféu. Mas o contexto colonial quase sempre era apagado pela narrativa europeia.

Enquanto ele brilhava nos gramados, movimentos de independência cresciam na terra onde ele nasceu. O jogador era o herói da metrópole, enquanto o seu povo, em Moçambique, lutava para deixar de ser colônia. É um contraste que dói, mas que precisa ser encarado por todo torcedor.

No fim, o futebol nunca se espalhou pelo mundo de forma neutra. Ele foi, e continua sendo, instrumento de influência cultural dos colonizadores. As mesmas relações históricas que moldaram impérios acabaram moldando seleções, identidades nacionais e até quem teria a oportunidade de ser visto pelo mundo dentro dessa estrutura de colonialismo.

Talvez o ponto mais importante não seja “reduzir o futebol à política” — até porque ele já é política —, mas entender que o futebol carrega história. Porque às vezes, antes mesmo de a bola chegar no pé do craque, ela já tinha atravessado séculos de colonização. E é sobre isso que a gente precisa falar para não normalizar o que é fruto de exploração.

A Copa do Mundo é um dos maiores espetáculos esportivos do planeta, um momento em que o mundo assiste a uma disputa entre nações em batalhas dentro do gramado. Mas, por trás de cada seleção que entra em campo, há um conjunto de histórias que não cabem nos 90 minutos de jogo. Histórias de migração, desigualdade, conflitos políticos, disputas por identidade, memória coletiva e formas diferentes de existir no mundo. Futebol e a política se discutem e também se misturam.

É a partir desse olhar que nasce esta série de textos em que não falo apenas de futebol e nem só de política. A Copa é o ponto de partida para dar visibilidade a histórias, questões sociais, culturais e políticas. Ao longo das próximas publicações, o convite é simples: atravessar o campo comigo, percebendo que a Copa nunca foi só futebol. Mas e para você, qual é o tema que merece a nossa atenção nesta Copa? Vamos construir esse debate juntos?


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